sábado, julho 29, 2006

DEAMBULAÇÕES PELA ESCRITA

Se não fizeres nada de grande, a puta da vida passará por ti sem quase dares por ela. Porque a vida é uma puta que adora divertir-se.
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Se hoje dissessem que eu e Deus nos conhecemos há já tanto tempo que nos tornamos amigos, algum dos meus episódicos companheiros de laracha iria dizer que tinha entrado já na mais irrecuperável senilidade. Porque eu e Deus estamos condenados a ser irreconciliáveis inimigos. E ainda que me repetissem a dúvida solene de Joubert (o poeta francês, não o militar sul-africano), que "Deus fez o mundo. E se ele tivesse feito apenas as nossas almas?" – ainda assim iria dizer que apesar de tudo eu continuaria sempre com a vantagem de ser "humano", e por isso capaz de ser mais bondoso, mais justo e mais puro do ele próprio. Porque as minhas humanas limitações fazem com que tenha pouco jeito para brincar com coisas sérias e conheço de sobra a minha falta de graça, mesmo quando me esforço para me sair com alguma piada. Exactamente aquilo que em Deus - para azar da humanidade - parece que também nunca abundou.
Mas se, em vez de Deus, me citarem a vida, aí, sim, confirmo que a conheço há já muito e muito tempo e que, ainda que a fulaninha não o queira dar a perceber, temos lutado taco a taco - com as desvantagens todas do meu lado -, mas levando eu sempre a melhor. Não sei qual será o estado do meu corpo quando ultrapassar aquilo que dizem ser o "limiar supremo". Mas se nessa hora ela me perguntar em bom latim (porque com a idade que tem só deverá saber falar latim), quam te memorem Ascêncio, eu poderei dizer-lhe com o orgulho malandro que ela própria de obrigou a aprender - se tiver forças para tal e traduzindo desde já: quiseste sempre foder-me, mas eu não me subjuguei. Fui por isso o mais forte.

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Nos Estados Unidos da América dizem que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.

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"Há dias em que me levanto com uma esperança demencial, em momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida mais humana estão ao alcance das nossas mãos."
Isto escreveu, em esperançado mas azedo testemunho da vida que hoje vivemos, o escritor argentino Ernesto Sabato. Num consciente incitamento à nossa capacidade de resistir ao poder da robotização, acreditando ainda na possibilidade de resistência do homem à perda dos valores tidos como essenciais da sua natureza, onde o espiritual parecia ser - há apenas setenta ou oitenta anos atrás - um superior sinal de grandeza. Mas, apesar desse fervoroso mas ineficaz apelo à boa vontade dos homens para enveredarem por um outro estilo de vida, desse inútil alerta contra a perda das simples conversas à mesa, das sãs contradições e discussões e até das zangas, já substituidas pela solitária visão hipnótica da televisão - esse excesso de luz, mágico e maléfico, que produz o paradoxo de nos "massificar solitariamente" e de cada vez mais nos afastar do cerne das coisas, deixando que se apodere de nós essa indiferença metafísica da vida que nos retira a possibilidade de convivermos humanamente, creio já não haver forma de valorizarmos a nossa existência. Isto é, de valorizarmos a porca da vida. Porque - recorrendo ainda ao pensamento de Ernesto Sabato - tragicamente o homem está a perder o hábito do diálogo com os outros, bem como o reconhecimento do mundo que o rodeia, apesar de ser só nele que possam ocorrer o encontro amigável e fraterno, a possibilidade de amor e os gestos supremos da natureza humana. Os gestos supremos da vida.

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Virgílio dizia, há dois mil anos, que a criança começa a sua vida com um sorriso - história em que eu não acredito, se quase sempre o prémio do seu nascimento é uma ou mais palmas no trazeiro tenro e nu. Por isso penso com inquieta esperança no que a vida reserva às crianças que nascem hoje. Ah, a vida!... Eu nasci, e ela nem deu por mim. Foi num amanhecer de sombras iluminadas por uma luz cítrica, que nascia desiludida e fatalmente impregnada de mil indecisões. Espelhando, talvez, na sua fealdade triste, a tremenda ousadia de eu ter nascido. Como se àquela luz estranha a natureza prometesse desde logo ser madrasta, e os milhões de passinhos dos caranguejos na maré baixa, inaudíveis e apressados, me avisassem de que nada existe mais frágil do que uma vida condenada ao desastre do seu próprio esquecimento. E é verdade. Nada há mais frágil do que aquele que nasce sem que a vida repare nele ao nascer. Como se logo perdesse qualquer coisa que só se recupera tarde demais. A vida, privando-me do seu conhecimento, abandonou-me a uma ignorância que só a morte poderá compensar. Formando à minha volta uma couraça de desencanto, que é como um caixão antecipado. Embora, quem não sabe?, com angustiante urgência, sempre invente pontes para a sua hipocrisia e a sua malícia. Mesmo quando parece que nos dá de vez em quando umas pancadinhas no ombro e nos sussurra aos ouvidos alguns murmúrios bem-intencionados e amigáveis. Mas é pura ilusão - senão maldade. Porque o homem que a vida não vê ao nascer, está fatalmente condenado a empreender o seu caminho no mundo sem nada entender da maldade dos outros. Na infância, a bondade da sua condição humana - o mais humilde dos seus poderes - jaz adormecido, se a vida lhe destinar o desconhecimento da sua verdadeira existência. "É pouco mais que um animal, crescendo como uma planta e nutrindo-se como uma flor" - escreveu o velho Gracián. E eu, nada tendo recebido daquilo que a vida me poderia dar se tivesse reparado no meu nascimento, só poderei ser comparado a qualquer homem "normal", essa besta sensual e ambiciosa, buscadora de prazeres.

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A vida?... Ah! Será que eu tenho conseguido driblar essa espertalhona desde a madrugada em que nasci? Ou estará ela a enganar-me, fingindo que ainda não deu por mim? Fingindo que não guarda, na sua velhíssima memória, nenhum respeito pela justa veneração que a minha idade já merece? Talvez. Não recordará ela, sequer, nem o eco de nenhum ronco da minha dor? Custa-me a crer. Porque, se a cada um de nós, os homens verdadeiros, não interessam os festejos de quando, ignorados pela fortuna, entramos na existência sem que a vida dê pela nossa presença, importa-nos pelo menos uma exclamação de surpresa geral quando da nossa saída. Para que não aconteça sermos comparados aos que, saudados como conquistadores quando assumem uma posição importante oferecida pela vida, logo somos esquecidos ou até amaldiçoados quando a deixamos. Isso seria - pobres de nós, os outros! - como se a nossa existência tivesse também uma fachada rica e ostentosa e um pátio das trazeiras muito humilde. Mas se a vida não faz nenhuma ideia de quem sou, também eu não faço qualquer esforço para lhe dedicar mais atenção do que aquela que guardo para uma imunda puta de rua. Nem mesmo para aquela surpreendente espécie de barata voadora, que no início das chuvas sai do seu esconderijo para se suicidar batendo tonta e teimosamente contra a lâmpada de um indiferente candeeiro de rua, quando, pela noite, está acesa. Ah, mas a vida... Essa eu tenho-a ignorado deliberada e rancorosamente, sem sequer ouvir a sua respiração de tragédia e de pura ausência de alma. Recordando apenas aquilo que alguns infelizes que lhe dão atenção repetem vezes sem conta: "Puta de vida!... Puta de vida!... Puta de vida!" E assim, ignorando-nos mutuamente, mesmo estando tão próximos um do outro, chego à conclusão de que este mundo onde ambos estamos não foi feito para nos encontrarmos. E sendo ela como é - desgastante, cansativa, repleta de dúvidas, de barganhas, de trocas e baldrocas, de intrigas, de conflitos e de guerras -, eu prefiro ficar onde estou, sem me dar a conhecer, sentado num banco de jardim ao rés da estrada deserta que não conduz a lado nenhum, onde verdejam - verde, que te quiero verde - os jacarandás carregados do vermelho luminoso das suas flores... Belas, da cor da luz do pôr-do-sol.

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Eh, vida! Cabrona esfaimada!... Aberração vinda dos infernos da criação!... Puta descarada, que nada dás de ti a não ser as dádivas desperdiçadas com quem não te merece! Os esfomeados dificilmente encontram pão, e os que têm o estômago satisfeito são aqueles que convidas para os teus repastos. Quem és tu?, que acreditas que aquele em quem não reparas ao nascer está condenado a nunca ter nada neste mundo? E quem imaginas ser quando ensinas aos homens, "gastai, no ódio, tudo o que tiverdes, e poupai, no amor, tudo o que puderdes?" Imaginas que assustas do mesmo modo, e tão parvamente, aqueles que são idiotas e aqueles que o não são? Ainda não reparaste que a falta de visão dos cegos só é comparável à ilusória sapiência dos médicos da alma, que inventaram a arte de dourar a verdade e adoçar a desilusão? A vida! Ah, vida!... Como se estivesses permanentemente sentada num trono resplandecente, sob um soberano dossel, mais atenta aos cortesãos que te bajulam do que aos desgraçados que dos teus favores necessitam - fazes tudo para não melhorares a espécie humana, incrementando a sua ambição e a sua luxúria - em que é que, ao fim e ao cabo, arrastas os teus dias? Sem imaginares, sequer, que também um dia chegará o teu fim na terra. Porque aqueles que tens protegido, entre asneiras e burrices serão exactamente os que, na sua imensurável ambição, um dia colocarão à tua frente a meta da tua vã ilusão de imortalidade. Esses que nem se dão ao trabalho de pensar nas formas correctas de agradecer os teus favores. Nem de conhecer, sequer, a loba que os engorda com o seu leite. Porque esses, mais brutos do que qualquer animal bravio, gozando as suas vidas vivem apenas para os vícios do seu gozo - degenerando da humanidade de si próprios. Transformando o prazer num vazio modo de vida, resumido apenas à mais fácil e egoista forma de o conseguirem. Num círculo fechado de engano e de pecado. Ah, o prazer!, percurso de todos os crimes e caprichos, em que cada um procura agarrar no seu caminho os pedaços com que mais se deleite a viver a fábula dos dois homens que um dia pediram à Fortuna, um, o mundo, e o outro o sucesso entre os ignorantes e os estúpidos. Pedidos que a Fortuna satisfez a ambos, explicando, porém, que o primeiro era um louco que nunca conseguiria nada com a satisfação do seu pedido, e o outro, sim, iria realizar a sua ambição, porque há poucos homens sábios e, sendo em número infinito os ignorantes e os tolos, a pessoa que os tiver do seu lado dominará o mundo inteiro.

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Nos Estados Unidos da América dizem que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.

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O Papa morreu. João Paulo II, o Grande, ou o Magno - dizem. Karol Józef Wojtyla, que nunca ninguém aprendeu a pronunciar Voitúa, de acordo com a língua da sua nacionalidade. O Papa que a vontade dos crentes exige que seja imediatamente "santificado". Ao invés dos próprios princípios da Igreja de Roma, que nos dizem que os processos de canonização são regulados por obrigações precisas. E para se ser santo é preciso que o candidato a esse indefinido estatuto faça pelo menos um milagre. Embora a palavra "santidade" - já alguém o disse – seja, já de si, uma palavra muito "obscura". A não ser que a suspeita de ter dado uma "obscura" ajudazinha no desmantelamento da antiga União Soviética, assim como o mais que duvidoso esforço de "domar os defeitos do mundo", sejam já levados a crédito do Papa recém-falecido na formulação dos ditos milagres. Bem como a sua hipócrita carta Salvifici Doloris, a tentar justificar o injustificável sentido do sofrimento humano; a machista carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, onde decreta que a ordenação sacerdotal, reservada apenas aos homens, "deve ser considerada definitiva"; ou a incoerente "tirada" demagógica de que o apostolado dos leigos "é indispensável para que o Evangelho seja luz, sal e fermento de uma nova humanidade." Qual? Aquela que o capitalismo egoista, criminoso, sem moral nem lei, tem espalhado pelo mundo? Ah, a vida acolheu-o no seu colo quando nasceu, e atou-o a uma estrela, tratando-o sempre com especial carinho. E a sua subtil habilidade para a manipulação das multidões - dom fundamental que se adapta à capacidade intelectual e à profundidade de julgamento - sabiamente aproveitada, fez o resto. Mas agora, como procede com qualquer outro mortal - proposto santo ou não -, a vida rejeitou-o sem que nisso houvesse algum prodígio. E aqui levanta-se a velha sentença anunciadado por Jesus: ser santo na terra é pouco ou nada, mas ser santo no céu é muito. Também para os reis ou para quem quer que seja que na terra detenha o poder, vão o elogio das virtudes - mesmo não as tendo -, a autoridade e a glória. Ainda que todos saibam que o brilho se vê muitas vezes bem próximo do chão, distante da infinita altura do céu. Porque nem sempre a virtude, ainda que filha da luz da santidade (seja lá o que isso fôr), se estiver manchada pela mentira e pelos estratagemas da hipocrisia, terá como herança o esplendor. Assim como a glória da falsa santidade pode facilmente ser um monstro, gerador do mal e do negrume do obscurantismo. Mas, tendo sido a política da igreja de Karol Józef Wojtyla subtil e calada, parecendo sempre no ajuste certo do "facto consumado" pela sua forte vontade, não teria ele preparado na canonização irregular - por demasiado apressada - do "desmilagrado" mas diligente Josemaria Escrivá de Balaguer, a sua própria e também "desmilagrada" canonização? O diabo que responda a tal pergunta, pois em tão obscuras águas nem a puta da vida saberá nadar.

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- Habemus papan! - disseram. E disse-o a mancha branca do fumo no pardacento telhado do Vaticano. Benedetto XVI, ou Bento XVI, como por aqui se diz. E agora, Joseph Ratzinger?... Continuarás a olhar-te no espelho com os mesmo olhos cegos de todos os que te antecederam? Habemus papan! Para quê? Para que a vida continue a divertir-se à custa da cegueira dos papas e de quase todos os homens ? Ou será que terás o "poder divino" de ensinar ao teu Deus e à vida que a única coisa que nos poderia ainda salvar a todos - Deus incluido - é a certeza de que unicamente os valores verdadeiramente espirituais, ou melhor, humanamente espirituais, é que nos livrariam desse mortal terremoto que ameaça a condição humana e a própria terra?
O comum dos homens nunca se habituou a pensar na grandeza a que poderíamos aspirar se todos nos dispuzéssemos a domar a vida para que ela se comportasse de outra forma. Porque a puta da vida dos homens é tão ignorante que nem sequer a si própria se sabe valorizar. E ainda por cima burra teimosa e sem coragem para reconhecer a verdadeira dimensão do homem - apesar dos seus defeitos naturais. E assim, quanto mais o relaciona com essa parafrenália tecnológica que de maneira mais ou menos abstrata e inconsciente o vai afastando do cerne da sua essência espiritual e do diálogo com os outros seus pares e irmãos, olhos nos olhos e o reconhecimento do mundo que a todos rodeia e que umas escassas dúzias de respeitados criminosos colocam em perigo de fazer morrer, mais o afasta da possibilidade do amor fraterno, da verdadeira solidariedade e dos gestos supremos de que seria capaz.

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Morreu Álvaro Cunhal... Banal, a notícia, se se tratasse de outra pessoa. Pena, só, que tivesse morrido como Moisés: sem ter visto a "terra prometida". Mas eu não vou recapitular a sua vida, vendo-a como um filme que se desenrola ao contário. No elogio da grandeza de um homem, tudo o que é repetido passa a ter o valor de um trapo sem qualquer dignidade de serventia. Mas tendo em conta apenas a luta que ao longo de anos o opôs aos chamados socialistas democráticos, junto ao seu túmulo eu não teria relutância em lembrar o início da Carta ao comunista, do académico francês Jean Guitton:
Tu és comunista. E é por isso que te estimo. Porque a diferença entre o socialista e o comunista se assemelha à diferença entre o cristão e o místico.
O socialista proclama os valores da perfeição, da virtude, da igualdade social, que são os teus. Mas ele não pratica o social, a virtude, a perfeição. Tu, pelo contrário, continuas pobre e tens contigo aqueles que sofrem. No fundo, tu és um cristão que se ignora.
Eu não sou cristão. E nem sequer crente. Mas, a ser verdade apenas uma pequena parte do que apocrifamente se disse sobre a grandeza moral do modesto mas inegavelmente valoroso Jesus da Galileia, estas palavras são um incomparável elogio. Não só a Álvaro Cunhal como a todos os comunistas.
Mas lembraria ainda, para todos os que me lêem, as enigmáticas palavras do mesmo Jean Guitton, para que pensem nelas:
Estamos no tempo em que o homem se evade finalmente do seu cárcere, em que vê afastarem-se as galáxias, mas em que se levanta a questão mais insolúvel, a mais excitante para um ser submetido ao tempo: estou no fim ou no começo do mundo? Termina uma era. A aceleração da história acentua-se. Tudo se precipita para um momento terminal, fatal, e cada vez mais próximo.
Como entenderia Álvaro Cunhal estas palavras?

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Nas últimas décadas vai-se acumulando a instabilidade do clima da Terra num processo de aceleração que parece conduzir-nos irreversivelmente para o desastre. Quando, nos finais do século XIX, a comunidade científica se encontrava dividida em partes mais ou menos iguais entre aqueles que eram a favor da tese de que se caminharia para uma nova era glaciar e os que estavam mais de acordo com o génio sueco Svante Arrhenius, que preconizava o enriquecimento da atmosfera em dióxido de carbono devido ao consumo maciço de combustíveis fósseis - isto em finais do século XIX, convém lembrar - o que fatalmente viria a provocar um aumento global da temperatura média do planeta, os homens da ciência acreditavam que qualquer dos cenários teria ainda pela frente uma expectativa traduzida em milénios, ou quando muito em séculos.
Mas hoje existe já um consenso sofucante na comunidade científica sobre a caminhada da terra para o aquecimento global, quadro apavorante que, há vinte ou trinta anos, seria de nos aterrorizar a todos se a vida, para além de ser uma puta divertida, não fosse também uma besta da mesma estirpe dos políticos portugueses. Porque, há vinte ou trinta anos Portugal deveria ser, relativamente à sua superfície continental, porventura o país mais densamente florestado do território europeu. Pelo menos tínhamos, no distrito de Castelo Branco, a maior mancha contínua de floresta de toda a Europa. Mas, de ano para ano, essa floresta foi devorada pelo fogo e pela incúria e a burrice dos homens. Até quase desaparecer. Inventando-se culpados - há sempre a necessidade de um Judas para a má consciência dos políticos portugueses -, sugerindo-se tardios temores sobre o perigo das cinzas na água que bebemos, criando-se alvitres a posteriori sobre o tipo de equipamentos que deveríamos ter e não temos, levantando-se vozes iradíssimas a favor das penas a aplicar aos incendiários, culpando-se os proprietários das matas por negligenciarem a sua limpeza... e esquecendo que a maior parte das florestas ardidas eram do Estado. Portanto, da responsabilidade oficial dos senhores ministros, secretários de estado, secretários de secretários de estado e por aí abaixo. De todos menos minha, que de meu só tenho a mais pobre campa no cemitério da terra onde tive a desgraça de nascer.
Só que, na sequência da inteligente e fatal previsão de Svante Arrhenius, em Portugal ocorreram nos últimos vinte e cinco anos cinco grandes ondas de calor, sendo as duas últimas no espaço de um só mês - Junho de 2005. Este assunto não daria, nos nossos meios políticos, discussões mais proveitosas e menos maldosas do que essa condenação maldizente e mesquinha que de vez em quando se fixa na altura física dos senhores doutores Marques Mendes e António Vitorino? Ah, vida, vida, que além de estúpida és cega!...

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Aconteceu o furacão Katrina, que devastou parte do sul dos Estados Unidos. Arrastando com ele o paradoxo de mostrar que a mais poderosa nação do mundo tem, perante a natureza, o mesmo poder que a mais pequena e pobre ilhota perdida na imensidão de qualquer oceano. Isto é, absolutamente nenhum. O que chega a ser risível. A enormidade da força destruidora das suas armas, o poder do seu imenso dinheiro espartilhando a vontade dos políticos de todo o mundo, as tontices do ignorante texano que tomou de assalto a Casa Branca e que vai falando de coisas sérias com a mesma deslavada irresponsabilidade com que fala das suas antigas bebedeiras, ironicamente mostrou quanto é estúpida a vida. Porque os falsos valores do poder americano não valem nada perante os olhos cândidos de uma mulher velha e analfabeta, perante o exuberante colorido das nuvens de um entardecer, a floração das mimosas e dos jacarandás em pleno inverno, a bondade de um coração generoso ou o perfume de uma rosa. A atitude passiva do homem perante os erros da vida danificou-lhe a memória. Por isso o Katrina levou a que Portugal, país pobretana e desde há séculos mal governado que compra todo o petróleo que utiliza, parvamente oferecesse aos ricos Estados Unidos uns quantos barris do dito cujo, como se se tratasse de uns quantos ovos que fosse buscar aos ninhos das galinhas poedeiras dos mais pobres dos seus cidadãos. Não é verdade que a vida é mesmo uma puta divertida?

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No mesmo dia em o furacão Katrina arrasou Nova Orleães - como um divertimento do Diabo ou uma vingança de Deus se não fossem sempre os mais pobres a sofrer as consequências directas da ira da natureza - faleceu aquele que, usando uma expressão mais ou menos romântica caída em desuso, considerei o meu último companheiro de estrada. Francisco Rosa Tavares Sacoto. Um homem a quem a vida distinguiu apenas com o prémio de um coração maior do que o próprio peito, para quem a dedicação aos outros era como que a permanente sombra tutelar do seu comportamento.
Para ele, a razão de enfrentar a puta da vida nunca se baseou no imperativo de acumular fortuna material. Porque a razão mais íntima da sua essência como ser humano assentava exclusivamente na fraternidade e na solidariedade. Os sentimentos generosos faziam parte da energia secreta da sua vida, da sua imensa capacidade de anulação e sacrifício, da sua integridade e até dos seus erros.
Foi um homem que - para seu infortúnio - a vida traiu desde cedo, quando o deixou sem o apoio do pai e com a responsabilidade de atender à sua própria subsistência e à daquelas a quem dedicava todo o amor de que era capaz: a mãe e duas irmãs mais novas do que ele. E não lhe foi fácil encontrar o caminho para sair da desoladora situação que a vida tinha tecido à sua frente. E só a força de carácter, a temeridade perante os perigos desse desconhecido caminho enredado na desolação, no medo e na tristeza do abandono do país, fizeram com que ultrapassasse essa rasteira da vida, três vezes puta. E a profundidade que esses sentimentos encontraram em si enquanto cruzava - no estrangeiro - um mundo de valores ora positivos ora contraditórios, de uniformidades e de diferenças, estruturaram nele a excelência do seu generoso humanismo.
Assim, em cada acto da sua vida procurou sempre, com maior ou menor fortuna, invocar para orientação da sua forma de proceder os valores daqueles que, antes de qualquer de nós, quiseram transformar a vida dos desvalidos numa vida mais generosa e fraterna – uma vida que, para mal de toda a humanidade, conhece cada vez mais apenas a violência, o egoismo, o mal e o sabor amargo de uma experiência política generosa mas travada por aqueles a quem não convinha.
Só que, quer a puta da vida queira ou não queira, enquanto nascerem homens que ao morrer nos leguem exemplos de generosidade e de fraternidade como aqueles que nos deixou Francisco Sacoto, pode ser que, em cada dia que passa, reviva entre as pessoas de boa vontade a esperança de um mundo melhor.

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Nos Estados Unidos da América dizem que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.

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Mário Soares, "republicano, socialista e laico", aos 81 anos de idade, sem pensar que na política há também um ponto de "não retorno" e que a sabedoria não é mais do que o culto da lembrança e da memória, anunciou oficialmente a sua recandidatura ao cargo de Presidente da República. E hoje, na estação central dos correios, uma dessas velhas que gostam de fazer ouvir as suas vozes aos gritos às forçadas plateias que não dispõem de qualquer recurso para lhes fazerem saber que são enfadonhas, incomodativas e por vezes até mal educadas, soltou este fatal julgamento sobre o impenitente político: "Esse ’mija p’ás botas’ o que é que quer mais?" - aludindo, obviamente, à irreversível e simples vetustez da sua duvidosa capacidade de "ser capaz" como homem na mais ampla e chula perversidade do julgamento feminino, e não como político.
Mas a realidade é que, numa sociedade onde as razões da política se transformaram numa coisa cada vez mais difícil de localizar nessa indefinida fronteira entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, por se terem tornado assepticamente desumanizadas e indiferentes às lições recebidas da puta da vida - que parece estar sempre a olhar para o lado -, o senhor Mário Soares (ex-uma data de coisas, entre as quais presidente da república) cultiva demasiado o esquecimento, sem pensar que a sabedoria não é mais do que o culto da lembrança e da memória, sendo perigoso esse imperativo essencial de que cada um não deve pretender ser mais do que aquilo que é... ou já foi.
Mário Soares é inquestionavelmente neste momento um homem a quem a vida coloca, risivelmente, o drama do romance de Yasunari Kawabata, que nos diz que o homem que luta "não pode parar no caminho". Só que, contrariando este admirável e heróico conceito, está o final quase sempre sombrio e grave daqueles que "mijam p’ás botas". Um final, quantas vezes?, perturbadoramente miserável e ridículo.
"A rebelião das massas" de Ortega y Gasset trouxe-nos o pessimismo e a vontade da sublevação, que Mário Soares muitas vezes, nos seus discursos políticos, chamou de "direito à indignação". Mas Elias Canetti, que durante grande parte da sua vida analisou as teorias de Ortega Y Gasset, disse-nos que "a admiração passou de moda, restando-nos na política apenas a inveja na difamação e no rebaixamento. Os ídolos actuais (ou aqueles que o julgam ser) devem exibir (apenas) as suas cabeças de barro". Será que este búlgaro "nobilizado" em 1981 estaria a imaginar o quanto seria despachado e oportunista um político português dos dias de hoje quando a putarrona da vida guiou a sua mão ao escrever estas palavras? Ou teria ele adivinhado que Soares ainda poderia ser fish... mesmo já sem saber nadar?

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Morreu o meu amigo Orlando da Costa. Escritor de mérito, nunca em vida lhe foi devidamente reconhecido o valor que modestamente escondia no seu jeito arredio e parco em magoadas "confidências". Nunca, na sua história como escritor, as paixões dos homens permitiu que o seu nome fosse publicamente destacado como merecia. Sem que isso, no entanto, alguma vez tivesse despertado nele nem sequer a aprendizagem de qualquer ressentimento. Pelo contrário, podendo dizer que foi na vida apenas o que quis ser, o que está ao alcance de pouquíssimos homens.
Para mim, foi uma dupla pena a sua partida, porque, com o seu desaparecimento, quebrou-se um dos elos que, com o pintor Ganesh (Vamona Navelcar), hoje residente em Goa, como que se desvaneceu a sonhadora imagem que tinha da Goa de outros tempos e de outras misérias, assim como da Lourenço Marques - rebaptizada Maputo - que seguramente deve ter guardado, em qualquer melancólica e restrita sombra dos seus coloridos jacarandás, a marca da nossa passagem - quem sabe se, de uma maneira ou de outra, tão desesperançada como a de Camões na Ilha de Moçambique.

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É costume ouvir-se com frequência essa figura de retórica de que os jovens têm nas mãos o destino do mundo. No entanto no Iraque (por exemplo) todos os dias muitos desses jovens vão morrendo ingloriamente deixando o mundo entregue a quem condenou as suas vidas. Os mesmos jovens que à luz da mesma pensativa lua do tempo de César e Vercingetórix, do tempo das cruzadas e dos hunos de Gengis Kan, do tempo do saque da Índia, do Egipto, do México e do Peru, do tempo de Napoleão, da guerra de Espanha (que inutilmente ceifou Garcia Lorca ainda jovem), da primeira e da segunda Grandes Guerras na Europa, do saque da África ainda em curso, enfim, em todas essas épocas em que o futuro do mundo esteve sempre nas mãos dos jovens... eles nunca souberam o que fazer dele.
Só que, pela primeira vez na História, esse futuro, em vez de despertar a esperança, mais do que nunca desperta (até nos jovens) o terror de um engano irreparável.

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Porque nos Estados Unidos da América o povo pensa que tem um presidente, o que é capaz de ser apenas uma farsa.

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Em Portugal Aníbal Cavaco Silva chegou a Presidente da República. Parabéns, Aníbal! Oxalá o teu sangue algarvio contenha ainda uma gota do aguerrido sangue berbere de Tarique ben Zeyad, vencedor de Roderico, o godo, em Janda, Écija, Córdoba e Toledo, anulador de feudos e senhorios de terras improdutivas no oitavo século... Inxalá!... Mas... Mas... Se agora o teu devotamento for de sentido inverso e o possível remoto descendente de Tarique vir o mundo apenas aos olhos da actualidade robotorizada e quantas vezes mentirosa, aliando-se aos herdeiros dos godos moralmente decadentes deste tempo, aí a coisa complica-se. Porque, como dizia Sabato, o pior é a vertigem. E a propósito acrescentava:
Na vertigem não se frutifica nem se floresce. A característica da vertigem é o medo. O homem adquire o comportamento de autómato, deixa de ser responsável, deixa de ser livre, já nem reconhece os outros.
Encolhe-se-me a alma ao ver a humanidade neste comboio vertiginoso em que nos deslocamos, ignorantes atmorizados sem conhecermos a bandeira desta luta, sem a termos escolhido.
Sem razões concretas para isso, eu temo que algo de semelhante se venha a passar em Portugal, depois que cavaram entre os portugueses o abismo a que os mais crédulos chamam de liberdade de partidarismo político. Drama do nosso tempo... ou drama de todos os tempos? Afinal, coisa simples, que, resumida, nos diz apenas o seguinte: junta-te aos mais poderosos e vencerás todas as batalhas. Só que, neste caso, existe uma metáfora, que é o dinheiro.

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O mundial de futebol está aí. Portugal ultrapassou a primeira fase, ganhando a Angola, ao Irão e ao Méximo. E toda a gente tem já o campeonato como ganho. – Isto está no papo! - dizem. O que confirma uma vez mais que as crenças e o pensamento, os recursos intelectuais e o talento do homem foram postos ao serviço da conquista. Vencer é o objectivo - embora neste caso nem se saiba bem a quem... e talvez nem o quê. Talvez o que importe, no subconscente colectivo, é vencer as agonias que a tanta gente causam os tempos que correm. Mas, como dizia um velho documentário exibido em tempos nos cinemas antes do filme, Assim vai o mundo. E a puta da vida - diria eu. Porque os portugueses fazem a festa antes e depois dos jogos. Embebedam-se com cerveja e com o desastre dos dislates que dizem, à toa, como se todos fossem capazes de vencer cada um dos jogos apenas com as bacoradas das suas inconscientes expectativas. Digamos que falam vagamente de algo que tem a ver com a bola e com um ou outro jogador que em disputa anterior não produziu uma exibição à altura das suas parvas e destemperadas exigências. Porque todos se sentem alarvemente patriotas, cantando um Hino Nacional de que na maioria dos casos nem conhecem a letra (e muito menos a respectiva origem), extravazam de optimismo e alegria e são felizes... sem terem razão nenhuma para isso.
Portugal poderá perder o campeonato do mundo de futebol. Mas uma coisa poderei desde já dar como certa: São Filipe Scolari, de conivência com a Nossa Senhora de Caravaggio da sua devoção, fizeram o milagre de os portugueses esquecerem por uns tempos a subida do custo dos combustíveis, o aumento dos juros bancários, as muitas deficiências dos serviços administrativos e hospitalares e uma infindável lista de coisas que fazem de Portugal o país mais atrazado da Europa. Transformando este pequeno país num microcosmos onde se desenrola o drama deste início de século, que é a alienação.
A puta da vida fez-me também gostar de futebol. Mas lixou-se comigo, porque com isso não conseguiu roubar-me a consciência.

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Esta não é minha. É do Rodrigues da Silva, do JL.
"E se eu não fosse português? Sim, se eu não fosse português e, por um acaso, no presente Agosto, tivesse caído (como soe dizer-se) de pára-quedas neste país à beira-mar plantado? Bom, se assim fosse, se soubesse a língua dos autóctones e lhes lesse os jornais e revistas diria que... Diria que Portugal padece de esquizofrenia. Se não, atente-se: enquanto as sondagens revelam que os portugueses estão muitíssimo pessimistas sobre o seu futuro imediato, esse Estado dentro do Estado que dá pelo nome de futebol está optimista ao máximo. Dos Benficas, Sportings e Portos ao Curvaceira Fótebol Clube todos esperam ganhar tudo, este ano é que é, este ano é que vai ser, Viva! Viva!, no que as respectivas maltosas crêem com aquela visceral crença portuguesa que dá pelo nome de fezada. (...)"
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Dizem que é mais fácil ir do céu à terra que da terra ao céu. Mas isto acontece apenas com os impenitentes para quem "dois mais dois são quatro", que julgam ser a objectividade e o bom-senso as principais razões para se viver. E o sonho - onde fica, para eles? A ciência rejeita (e muito bem) tudo o que se diga sobre religiões. Ainda que seja o humilde trabalho desses padres ignorantões que passam o tempo em árduos caminhos, catequizando, casando, enterrando, confortando gente que precisa desse amparo e acreditando que na sua voz se esconde a voz de Deus. Mas a ciência, por mais que diga e faça, nunca conseguirá contrariar o sonho, que é a verdadeira substância da esperança. O sonho - que sabe, de maneira elevada, transformar a vida quotidiana e banal ao ponto dos simples pedreiros da Idade Média terem conseguido construir catedrais. Esses, sim, conseguiram chegar da terra ao céu.

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Creio que nunca se falou tanto no "prestígio" internacional da língua portuguesa. Mas que importa isso se se falar da língua portuguesa (e até dos portugueses) se for apenas por causa do futebol? Diz-se que Richelieu pensava que uma nação só pode ser ilustre pela sua língua, como, aliás, tinha já acontecido na Grécia no século de Péricles, no século de Augusto em Roma e na Inglaterra da ambiciosa Raínha Victória.
Mas falar da "grandeza" da língua portuguesa numa altura em que o frívolo e o sério se cruzam intensamente e as palavras mais importantes se tornaram "victória" e "derrota", ousarei dizer que a língua portuguesa não é traiçoeira - como dizia o outro -, mas sim a língua caprichosa de um povo na sua maioria profundamente mergulhado na idiota da ignorância.
Mas nem sequer nisso conseguimos ser originais. A França começou por rejeitar Víctor Hugo, Balzac, Baudelaire, Zola, assim como o "licencioso" mas hoje "anjélico" La Fontaine, que são hoje... aquilo que são. Sem outros comentários, porque foram eles e os seus inúmeros artistas plásticos que fizeram a grandeza da França. E tenho a mais inamovível dúvida de que daqui por cem anos alguém saiba quem foi Platini ou Zidane. Poderá considerar-se um caso patológico o facto de os portugueses não serem capazas de se manter tranquilos e calmos, sem entrar em contacto com o mais fundo que há na alma humana com o reconhecimento de que um simples jogo de futebol - que se perde ou se ganha - não tem nada de extraordinário face às imensas capacidades da mente do bicho homem que não sabe o que fazer com uma bola? Bem sei que este é um traço característico de todos os "nacionalistas" do mundo. Mas o que será isso de se ser nacionalista? Será coisa que faça parte do "natural" que são os medonhos esgares de ridícula paranoia quando alguns energúmenos se vêem diante de uma câmara de televisão. Será mesmo?

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Nos Estados Unidos da América dizem que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.

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A palavra anestesia deriva do vocábulo grego "a isthesis", para significar a privação total ou parcial da sensibilidade. E diz quem é versado na matéria que a anestesia pode ter origem numa causa patológica, como uma pancada, ou provocada com finalidade médica. Mas não se fala de uma terceira causa, cuja razão ou origem mais ou menos se conhece e por isso nunca é referida. Qué é aquela de que falei há dois ou três destes breves apontamentos atrás: a futebolite.
Diz-se que pela boca morre o peixe, e é verdade. Porque escrevi o que escrevi - ao que não retiro nem uma vírgula -, e até eu, que sempre serenamente assisto aos campeonatos de futebol, embora tranquilamente deitado na cama, quase senti como é possível sofrer um ataque cardíaco ao assistir ao jogo Portugal-Holanda para a chamada Copa do Mundo (noite de 25.06.2006). Embora com todos os nervos responsáveis pela sensibilidade do coração mais ou menos controlados, porque sou de temperamento "frio" nos momentos de aperto, senti como é fácil para certas pessoas cairem na inconsciência transitória de um ataque não só cardíaco como de loucura, dado não disporem da informação necessária para se auto-controlarem em momentos como alguns que ocorreram naquele jogo. Foi tão intenso e fora do comum o "sofrimento" dos espectadores, que só uma impossível anestesia geral poderia retirar-me a razão quando critico a alarvice que (apesar de tudo) vive paredes-meias com o futebol.

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Estou neste momento a sofrer daquilo que os médicos chamam de "febrilhação" cardíaca depois de já ter tido um enfarte e uma crise grave de arritmia, que levou os médicos a terem que me fazer parar o coração para em seguida o reanimarem com um choque eléctrico, a fim de retomar o seu rítmo normal. Entre outras maleitas menores de que ainda não estou livre, e de outras de que há muito me livrei, como essa coisa dos amores e desamores, todo este conjunto de acidentes faz de mim um "expert" na matéria.
Como gosto de entender minimamente as coisas que o simples "sentir" do próprio corpo não nos ensina, li muito sobre o assunto. E dessas leituras, agora, que é verão, queria deixar aqui um resumido registo, que poderá ser útil a quem pouco se preocupa com aparentes "pequenos sinais" que têm a ver com o nosso estado de saúde:
A exposição ao calor por várias horas pode causar um estado de prostração, como se a pessoa por qualquer outra razão tivesse ficado esgotada. O que acontece é que a temperatura elevada obriga o corpo a transpirar mais, podendo conduzir a uma perda excessiva de líquidos. O resultado é fadiga, queda da tensão arterial e, por vezes, desmaio.
É que com os líquidos perdem-se sais que são essenciais à circulação sanguínea e ao funcionamento do cérebro. Daí a debilidade e a prostração. Sob o efeito do calor, a pessoa pode também ser acometida por uma sensação de desmaio quando se encontra em pé: isso acontece porque o sangue se acumula nos vasos sanguíneos das pernas, os quais se dilatam com o calor, ao mesmo tempo que os batimentos cardíacos se tornam mais lentos e fracos, a pele arrefece, ganha uma tonalidade pálida e um aspecto húmido e viscoso.
A pessoa pode mesmo ficar confusa, pois a perda de líquidos reduz o volume do sangue e faz descer a pressão arterial.
Estes sintomas geralmente não correspondem a um quadro grave, mas importa actuar sobre eles para que a pessoa se sinta melhor. Repor os líquidos e os sais perdidos é a principal medida, o que se consegue com a ingestão de bebidas frias e ligeiramente salgadas. Permanecer num ambiente fresco também ajuda, sendo aconselhável que a pessoa se deite e mantenha a cabeça ligeiramente mais baixa do que o resto do corpo.

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Embora tivesse prometido a mim mesmo não falar da minha pessoal nem da Câmara Municipal de Ílhavo, sede do concelho a que pertence a terra onde nasci, para que conste, e para mostrar quanto desprezo essa classe de indivíduos adeptos ferozes do caciquismo folclórico, intelectualmente abaixo do medíocre mas que por vezes enriquecem como por milagre "colados" aos partidos políticos onde se acoitam, transcrevo aqui uma carta dirigida ao presidente da Câmara Municipal que mandei publicar num jornal local:
"Quero confessar-lhe que não me sinto feliz por a si e ao seu executivo, em relação à minha terra, ter de associar a fábula do asno de Buridan. O senhor, como homem formado em culturas silvicolas, agrícolas e hortícolas, provavelmente pouco dado a leituras clássicas, não deve conhecer esta fábula, mas aí o seu dilecto e directo assessor eng. Caçoilo talvez a conheça, pois está associada à teoria do "impulso", do velho cientista francês Jean Buridan, matéria mais próxima da sua formação académica. Mas, por causa das dúvidas, da eventual falta de memória e também da ignorância - não vá o diabo tecê-las fazendo com que seja mais forte a ignorância do que os outros dois factores que enunciei -, vou apresentar o famosíssimo e infeliz asno Buridan.
Conta-se que Jean Buridan, ao tentar explicar os efeitos práticos da sua teoria, ter-se-ia servido de um burro cheio de fome e de sede, junto do qual colocou, de um lado, um fardo de palha, e do outro uma tina com água. Mas na indecisão de saber por qual começar (daí a lei do impulso), o desgraçado do burro acabou por morrer.
Ora parece que em tudo o que respeita ao desenvolvimento da minha terra, a Câmara Municipal de Ílhavo continua a sofrer do complexo do burro de Buridan. Como acontece agora com a "santaníssima" lembrança de mandar abrir um "concurso de ideias" para a utilização do terreno onde funcionava o antigo mercado. Quer isto dizer que, ideias saídas da própria Câmara ou da Junta de Freguesia, assentes nos interesses da população local, compreendendo a magnitude das suas aspirações mais profundas e perduráveis... nicles. Porque tudo isso está condenado a perecer nos complicados meandros internos dos computadores ou sobre as pranchetas dos arquitectos sem sequer ser lembrado.
Mas isto é apenas o aparente, porque costuma dizer-se que o ponto mais alto do comportamento humano manifesta-se na solidariedade. Quando se sente a vida como um caos e não existe um pai ou alguém através de quem possamos sentir-nos irmãos, qualquer esforço perde o fogo ou a energia que o alimenta. Albert Camus dizia que o grande dilema do homem é saber se será possível ou não sermos santos sem Deus. Mas ao senhor presidente da Câmara não lhe interessa a solidariedade que implique o querer dos meus conterrâneos. Nem tão pouco está interessado na existência de Deus a partir do momento em que não deseja ser santo para os seus munícipes. Para ele torna-se muito mais fácil vestir a pele do asno de Buridan e terminar os seu último mandato sem deixar nada que o lembre a não ser a memória do Zé Agostinho, o rei da festarola. (No Concelho há festas todas as semanas.) Assim, no caso presente, endossa o problema a um qualquer arquitecto que pode lembrar-se de fazer ali uma tacanha réplica da Câmara Municipal de Ílhavo, ou porventura um monumental mijatório público, e está salva a honra do convento. Se alguém se queixar, assim a culpa será sempre de outrem, e não dele, porque "o senhor presidente" demonstrou espírito democrático a toda a prova lançando um concurso de ideias. Só que, como na anedota que todos nós conhecemos, soprando para longe a pena (de pato bravo) que lhe devia cair em cima, com a conhecida frase: Vai lixar outro!
Já uma vez foi pedido num abaixo-assinado que aquele terreno fosse reservado para um futuro museu de carácter antropológico, representativo daquelas que foram as variadas actividades dos primeiros homens e mulheres a povoar aquela terra, actividades de que exite um múltiplo e único acervo de antigas ferramentas e demais instrumentos dispersos (desde a lavoura à apanha do moliço, ao fabrico de sal, à pesca na ria, à arte da xávega, à construção naval em madeira, à pesca e seca de bacalhau, à construção de casas de moradia, de modelos de todos os tipos de embarcações utilizadas na ria, de miniaturas de navios desde as antigas naus aos modernos arrastões, etc., etc.), tudo sujeito a perder-se irremediavelmente. Abaixo-assinado esse que - como não estamos a tratar com pessoas suficientemente educadas para isso ou que simplesmente nos respeitem - nem sequer mereceu um simples ofício acusando a recepção.
Mas se à Câmara falham as ideias eu tomo a liberdade de lembrar o seguinte: em todo o Concelho de Ílhavo não existe um único edifício público com dignidade suficiente que faça parar qualquer transeunte para o admirar. A falta de gosto estético parece questão em que a autarquia faz ponto de honra. Perante esta evidente realidade, porque não dar agora o primeiro passo para começar a alterar a situação?
Se eu fosse presidente da Câmara mandava demolir o actual edifício da Junta de Freguesia, refazendo a sua estrutura orgânica, mas apenas com um salão em forma de anfiteatro (não se compreende porque razão há-de ter dois salões praticamente idênticos), criando uma sala dimensionada a reuniões colectivas da Assembleia e da Junta de Freguesia, com algum espaço para eventuais assistentes.
No que restasse do piso inferior faria uma "loja do cidadão" para benefício das freguesias periféricas (e porque não também S. Jacinto?), podendo incluir serviços de notariado e registo civil. E no piso superior o já tão reclamado e necessário museu da cidade.
Mas a qualquer arquitecto que se proponha entrar na aventura de tão aberrante concurso, aconselharia uma rápida visita ao Museu Romano, de Mérida. Aí poderá inspirar-se numa solução inteligente, elegante, sóbria, mas com a dignidade própria de um edifício público, que honraria o Concelho.
Quanto ao senhor presidente da Câmara... enfim, se tem a limitação de espírito que lhe permite viver sem um sentido perdurável no seu trabalho, limitação essa que tão facilmente o levam a descartar-se dos deveres a seu cargo, sou forçado a dizer-lhe que eu sou exactamente o oposto. Quanto maior for o desafio, maior será sempre o meu empenho. Em nada estou de acordo com Sartre quando disse que "a vida é um absurdo", seguindo as pisadas filosóficas de Kirilov, a quem se deve a célebra frase: "Se Deus não existe, tudo é permitido." Oxalá que o senhor presidente da Câmara Municipal de Ílhavo não se deixe ficar nem nos desencantados pensamentos de Sartre e Kirilov nem na falta de impulso do asno de Buridan, e se decida pela construção daquilo que a minha terra precisa, satisfazendo as suas necessidades práticas e respeitando a memória de quem, a pulso, a fez erguer sobre as dunas desertas.

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"O Estado terá sido lesado, segundo a Inspecção-Geral de Saúde, em mais de um milhão de euros por trinta dirigentes hospitalares que receberam remunerações e regalias a que não tinham direito, nomeadamente usando cartões de crédito e carros de alta cilindrada ou auferindo de subsídios de representação indevidos." (Farmácia – nº 117-Junho 06) Faço uma pergunta inocente: será que estão todos na cadeia? Faço a pergunta porque na mesma revista (acima citada) se encontra mais esta - para mim - desconcertante informação: "O processo está (...) nas mãos da Procuradoria-Geral da República, que irá averiguar se, além do abuso, existe crime."
Para cumprir que tipo de maldição os meus pais me fizeram nascer neste país?

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O povo dos Estados Unidos da América continua a dizer que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.

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Escreveu Ernesto Sabato, um dos autores da minha preferência, este pequeno e sábio texto:
"Outro valor perdido é o da vergonha. Notaram que as pessoas já não têm vergonha e que, então, acontece que entre pessoas de bem se pode encontrar, de sorriso aberto, qualquer sujeito acusado das piores corrupções, como se nada fosse com ele? Noutro tempo, a sua família ter-se-ia enclausurado, mas agora é tudo o mesmo e alguns programas solicitam-no e tratam-no como a um senhor."
Não parece que o meu admirado Sabato (que é argentino, para aqueles que não sabem) estava a falar do pífio jet set nacional? Quantos destes figurões vimos nós pavonearem-se diante das câmaras da televisão? E não me venham dizer que isto é maldosa lorota minha, porque cada um de nós conhece pelo menos dois ou três.

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Nunca me dei ao desfrute de fazer profecias pela simples razão de que tenho medo de que a vida, zarolha e tonta, me faça sair da minha obscura, cega e conformada submissão ao futuro. E lamento que nem todos pensem da mesma maneira. Na "Revista do Grupo José de Mello" nº 16 li esta interessante "tirada" no meio do habitual, empolado e enigmático palavreado com que a chamada élite dos nossos responsáveis de qualquer coisa gosta de se exprimir (de entre os quais, de imediato, excluo o Dr. Medina Carreira, sempre claro e directo naquilo que diz): "(...) não devemos aspirar às médias mas antes olharmos para países em que a atitude das populações gera o sucesso. Como na Espanha." Esta frase é do Dr. Paulo Teixeira Pinto, digníssimo Presidente do Conselho de Administração Millennium/BCP. Isto depois de ter dito esta aparente banalidade: "Parece que só estamos bem a dizer mal e alimentamos o lado negativo das coisas. Tem de haver uma percepção da realidade e uma vontade de mudança da realidade." (Esta, desculpem-me, mas é para rir. Saberá o Dr. Paulo Teixeira Pinto qual é a realidade deste país? Já alguma vez teria ele vivido e sustentado a sua família com uns míseros duzentos e poucos euros por mês? Seguramente que não, porque de contrário não diria que "a atitude das populações gera o sucesso." Atirando, óbvia e demagogicamente, para cima de quem quase morre de fome a descoberta da pólvora, que é "(...) uma vontade de mudança da realidade". E eu - que conheço a Espanha melhor do que ele e gostaria até de me divertir com a irresponsabilidade das suas palavras, que me fazem lembrar os tempos de criança em que descobria que um brinquedo era mesmo um brinquedo e aparecia um marmanjo qualquer que fingia experimentá-lo, disfarçando, mas insistindo e de repente retornando ao tempo das suas calças curtas, impondo a sua vontade sobre a minha em função da diferença física - gostaria que o digníssimo presidente me dissesse, já que citou a Espanha como eventual exemplo, onde param em Portugal as similares das dezenas de caixas de aforro que inundam o país vizinho. Para não falarmos de outras coisas, como capacidade administrativa, agressividade comercial, apoios atempados do Estado à iniciativa privada, apoios à exportação, redução de impostos directos ao trabalhador por conta de outrém, redução de impostos indirectos, etc., etc., etc. Para não falar já na "miraculosa" diferença salarial. Porque a vontade de mudança da realidade de que fala (que não é novidade nenhuma porque sofremos dela há séculos) terá de partir de cima e da real competência dos nossos dirigentes despida do usual nepotismo partidário. Quanto ao resto, como diz o Zé Povo, estamos conversados: a única coisa que se pode fazer para mitigar a nossa vontade de ver mudada a mentalidade dos administradores da Banca (e de quem os favorece), é estúpida e alienadamente gritar por Portugal na Copa do Mundo.

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Quando Fernando Pessoa, homem porventura misógino, tímido e solitário, num duvidoso rasgo de génio, nos disse que a língua era a sua pátria, logo esta bela metáfora onde o poeta provavelmente procurava apenas refugiar-se na sua humildade, passou a ser imensamente repetida, sobretudo por aqueles que etntavam na altura impingir-nos a perversa e mentirosa ideia de uma pátria grandiosa, que chegava do Minho a Timor.
Trata-se, sem dúvida alguma, de uma bela metáfora. Mas, da forma como passou a ser repetida, transformou-se numa grande treta. Digo isto porque, circunscrevendo Fernando Pessoa o seu mundo ao percuso entre o Chiado e o Martinho da Arcádia e pouco mais, é difícil imaginá-lo partilhando as fronteiras da língua portuguesa na comunidade de representações que a Associação de Cultura Lusófona pretende hoje defender. Pelo menos, segundo penso, ao nível literário. Uma treta feliz, de grande e pertinente amplitude filosófica, mas sempre uma treta, que pouco excedia as fronteiras deste rectângulo onde vivemos, plantado numa das margens do Atlântico.
Estou mais de acordo com a Nélida Piñon, que ainda há menos de um mês, num breve e apressado comentário de rua transmitido pela televisão, disse que "a língua (neste caso a língua portuguesa) é uma epopeia". É verdade. Nada menos do que isso: uma epopeia. E eu diria que o é, não só pelo que já se tinha escrito até à data em que o Pessoa escreveu a sua famosa metáfora, como também pelo impulso que tomou na década de cinquenta do século passado com a chamada "nova literatura" brasileira, que reformulou toda a estrutura semântica e lexical da língua portuguesa.
O ano de 1956 marcou, não em Portugal, uma nova tomada de consciência dos produtores de literatura em língua portuguesa, a partir de três pontos básicos: o primeiro, com o surgimento daquilo que ficou designado de "poesia concreta", que foi uma espécie de marco estético; o segundo, com a estreia de Samuel Rawet com o livro Contos de Emigrantes; e o terceiro foi o aparecimento de dois romances que foram decisivos na designação de "nova literatura", que foram Duramundo, de Geraldo Ferraz, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Especialmente a obra deste último autor.
Tinha havido no Brasil, anteriormente ao movimento inovador regionalista, o ciclo "primitivo", sobretudo com o romance do nordeste, de carácter para-social e regional-psicológico. Mas esse ciclo não tinha nada a ver com o fenómeno nascido em 1956, que cortava, de um golpe, as raízes do classicismo para projectar a concepção de um novo universo criador, que não existia em nada do que pudesse, até ali, ser inscrito na literatura de língua portuguesa.
Tinham, em anos anteriores, surgido autores que trouxeram até nós experiências de um mundo rural doseadas de um picaresco original, único nas letras portuguesas, com as histórias de Afonso Arinos, Simões Lopes Neto e outros.
Também em Portugal tínhamos o caso isolado de Aquilino Ribeiro, um autor original que insistiu numa experiência de utilização de um regionalismo lexical misturado com uma forma erudita, experiência essa que no meu entender não conseguiu retratar com inteira verdade nem as personagens nem o seu mundo. À excepção da fabulosa história do Malhadinhas, onde o autor soltou a sua personagem na mais completa liberdade, de onde resultou que a função da tosca e pícara linguagem popular se bastasse a si mesma para retratar o personagem e simultaneamente o mundo rural a que pertencia.
Naturalmente que tivemos em Portugal grandes cultores da língua, que se tornaria enfadonho mencionar, mesmo na sua mais simplificada enumeração. Aos quais se vieram juntar as vozes dos grandes autores cabo-verdeanos, como Jorge Barbosa, Baltazar Lopes, Aguinaldo da Fonseca, António Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes, a quem se seguiram Orlanda Amarílis, Corsino Fortes e, felizmente, alguns outros. Sem podermos esquecer as vozes longínquas, mas anteriores, de Camilo Pessanha, que nos chegava de Macau, e de Wenceslau de Morais, vinda de um "Japão ideal que amou, sensual e espiritualmente", como refinadamente nos disse Urbano Tavares Rodrigues.
Mas é Guimarães Rosa quem reinventa toda uma nova alquimia verbal, passando por vários caminhos para chegar à meta que considerava o seu ideal renovador: a linguagem artística, onde a recriação do tom coloquial, mantendo todo o sabor do falar popular, transformaria por completo a visão do fenómeno criativo. Sobretudo com o enriquecimento do léxico, a preocupação com a beleza formal e o recurso poético da inversão dos termos, a busca incessante de semantemas para que novas palavras sejam criadas, as quais dão uma dimensão nova à criação literária da prosa ficcional, numa espécie de "didáctica da linguagem", onde o essencial é, intencionalmente, a relação linguagem-fabulação.
No entanto, no meu entender (emboa seja um juízo feito a partir do que chega às nossas livrarias) é em Moçambique que está a ser continuada com mais qualidade e persistência a renovação formal da literatura em língua portuguesa iniciada no Brasil - insisto - sobretudo com Guimarães Rosa. O poema Xicuembo, de Rui Nogar, que por coincidência é também de 1956, quebrou a univocidade existente até aí, que passou a ser substituida pela "infinita potencialidade da linguagem" de que nos falou Hugo Friedrich na sua Estrutura de La lírica Moderna (edição em castelhano da Seix Barral). Esse poema está escrito da forma seguinte:
eu bebeu suruma
dos teus olho ana maria
eu bebeu suruma
e ficou mesmo maluco
agora eu quer dormir eu quer comer
mas não pode mais dormir
não pode mais comer
suruma dos teus olho ana maria
matou sossego no meu coração
oh matou sossego no meu coração
eu bebeu suruma oh suruma suruma
dos teus olho ana maria
com meu todo vontade
com todo meu coração
e agora ana maria minhamor
eu não pode mais viver
eu não pode mais saber
que meu ana maria minhamor
é mulher de todo gente
é mulher de todo gente
todo gente
menos meu minhamor
A estrura formal desvincula-se, assim, de todo o seu significado semântico clássico, para passar a ser apenas pura vibração expressiva. E da impossibilidade de lhe atribuirmos um único sentido, abre-se uma possibilidade ilimitada de significações. Em vez de uma perspectiva, mil perspectivas. É um novo conceito que se forma, inesperado, ao ser dada voz a quem pretende transmitir sem peias e mensagem da escrita, pois ao ser concebida a liberdade expressiva a quem não serve senão a si mesmo, a significação do dito deixa de ser apenas uma significação obrigatória, para se transformar num movimento de profunda aproximação entre o criador e o leitor, que pode a cada momento , na sua própria imaginação, também ele recriar e renovar. A mensagem do criador liberta das baias da pureza gramatical que a condicionam transforma-se num manancial de quase infinitas virtualidades. O criador serve-se de todos os artifícios da sua capacidade criadora para chegar a essa evidência. Digamos que o reino da alegria imaginativa se engrandece na mesma medida da criação liberta e desafiante de novas fantasias, que lhe chega às lufadas, como forma de imaginação que antes parecia pertença exclusiva da própria estrutura do mundo, sujeito a uma determinada linguagem que homem algum tinha o direito de fruir e recriar.
Escreveu António Ramos Rosa, na sua Poesia, Liberdade Livre, que "se a arte é por excelência o domínio da virtualidade, nem sempre o artista, ao actualizar as suas potencialidades, sabe furtar-se ao perigo de uma actualização que não pôde reter em si a força criadora da virtualidade." O que significa que Rui Nogar não caiu nessa armadilha, pois ao construir os seus versos de forma gramaticalmente errada, "eu bebeu suruma dos teus olho (...)", e ao dar uma total ambiguidade a esse erro aparentemente tão grosseiro, estava a criar uma significação diferente ao seu discurso narrativo. Porque estava, antes do mais, a ceder a voz a um outro enunciador, que não ele. Levando assim o leitor numa direcção nova, onde os erros se acumulam, ele estava a definir um novo campo de leitura e de liberdade de interpretação. A leitura que uma obra de arte exige é que a sua própria dimensão se defina estabelecendo-se perceptivamente em relação ao sujeito. Mas é na fuga do sujeito à univocidade lógica e correcta que está a definir-se o actual e imparável enriquecimento da lusofonia. Todavia esta é uma questão que deixo aos teóricos da língua, esperando que eles não a pretendam restringir ao pequeno espaço em que a modéstia esquizofrénica de Fernando Pessoa a quis enclausurar.
Embora não possamos deixar de ter em conta a extraordinária "guinada" que devemos a Luandino Vieira no sentido da virtualidade criadora de que venho falando, como há muito tempo parece estar a "redimir-se" do pecado daquilo que, quando da publicação de Luuanda, assumiu foros de escândalo nacional, insisto em dizer que é em Moçambique que neste momento se processa a significação vivida de uma ambivalência experimental entre o que poderei chamar de clássico e de renovador. Porque aquilo que eu próprio ali iniciei em fins dos anos 50 e princípios de 60, que foi procurar antepor ao conceito da imagem criada pela narrativa "normal" o relevo artístico da experimentação da linguagem, numa prática que, no dizer da Prof. Maria Heloísa Martins Dias, da Universidade de S. José do Rio Preto, no Brasil, "afia as suas armas inventivas para enredar os acontecimentos reais na teia do discurso - misto de ‘prosa’ oral e elaboração reflexiva" (...) "escrita mitopoética da qual o histórico nunca está ausente, só que revelado pelo avesso das convenções ou previsibilidade, servida por procedimentos ficcionais que se singularizam, atentos a contextos específicos, quer do espaço geográfico-cultural quer do espaço da própria linguagem", no Moçambique de hoje, em oposição ao "irredutível vazio" da descrição resumidamente nua e crua habitual, salientam-se, no panorama de toda a criação literária em língua portuguesa, criadores de óptima e inovadora lusofonia nos inegáveis talentos de Mia Couto, Suleiman Cassamo, Bahassan Adamodjy, do mesmo modo que, nos já longínquos anos 60 do século passado, irrompeu em Angola, com o rumor de um vulcão logo abafado, a voz inesquecível do já citado Luandino Vieira, também em completa ruptura criativa com os padrões clássicos, que parece ter agora no jovem e talentoso Ondjaki. Oxalá se confirme este prenúncio, para bem de todos nós.
Mas insisto em dizer que é de Moçambique que nos chega o eco de um novo registo de lusofonia, que começa a ser uma vigorosa afirmação de quem não se acomoda ao estabelecido, mas apenas à sabedoria do ensinamento da narrativa oral dos "mais velhos" e sabe incorporar os elementos crueis e desumanos de uma guerra - ainda lembrada por quase todos - no difícil exercício da linguagem e sua afirmação como cultura própria.
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Os habitantes dos Estados Unidos da América pensam e dizem que o país tem um presidente. Mas cá fora ninguém acredita.
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Tentar utilizar o futebol como meio para expansão da língua portuguesa por "este-mundo-de-meu-deus", como nos meus tempos de menino se dizia na minha terra, parece-me que é estar a gozar com o pagode. Ou nem isso chega a ser. Já que se trata de futebol, será melhor dizer que alguém pretende preparar um jogo de parvos certificados contra parvos presumíveis. E digo isto corroborando em absoluto as palavras de Julião Sarmento: "Os países não devem ser ‘alvo’ de (tão reles)* políticas de divulgação da língua. A nossa cultura, dada a conhecer lá fora, é que pode criar interesse pela nossa língua. À excepção dos núcleos restritos das universidades, dos filólogos, dos linguistas, que devemos apoiar, acho que é a partir da divulgação da cultura que Portugal pode marcar uma presença no mundo. (...) A presença do português no estrangeiro não é maior nem menor do que há 100 anos."
Como se sabe, o problema começa cá dentro, mas não é nos campos de futebol. Porque "os portugueses falam cada vez pior. Ligamos a televisão e, em qualquer canal e em qualquer horário, só se ouve falar mal. Os jornalistas, que deveriam dar absoluto exemplo do domínio da língua, só dizem disparates. Portanto, a defesa do português deve começar cá dentro. Se cada português falar bem e conhecer a sua cultura ele será um agente de divulgação da língua e da cultura portuguesa no mundo." (J. Sarmento)
Para quê acrescentar mais seja o que for? No Brasil diz-se que para se ouvir falar o português tal como ele é usado pelos portugueses ... é só ouvindo uma anedota. Esta laracha deveria fazer pensar os responsáveis pelo ensino e pela cultura neste país. *(O itálico da primeira citação é meu).
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Desviando-se talvez inadvertidamente da sua apologia dos 50 anos de existência da Fundação Caloust Gulbenkyan e da sua influência em Portugal (JL de 5-18 de Julho de 2006), João Caraça afirma que o fenómeno de "política científica" que dividiu Portugal em dois grandes períodos na segunda metade do século XX foram o antes e o depois da sua entrada na Europa. Podendo ser discutível esta noção redutora do assunto, não deixa, no entanto, João Caraça de resumir o seu pensamento a um conceito simples e lapidar, que deveria ser o a, b, c de todos os políticos da puta da miséria deste país: "(...) nunca somos mais do que nós e a nossa circunstância. É este o sentido da vida: eu e a minha circunstância." Desde que os políticos sejam capazes de entender o sentido profundo do conceito, obviamente.
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"A obra literária e artística pode legitimamente, com efeito, ser objecto de análise psiquiátrica. O que é preciso é nunca elevar a análise psiquiátrica a critério estético. Perante uma obra literária, o psiquiatra nunca deve esquecer que é só psiquiatra, e não crítico literário. Renasce a velha tese da arte moral. Antigamente atacava-se tal obra de arte porque era imoral e o ataque falava da obra como se assim a ferisse esteticamente. Por uma confusão mental o critério moral era erigido em critério estético abusivamente.
"Os psiquiatras modernos - por uma questão de indisciplina mental - cairam no mesmo erro. Elevaram o critério psiquiátrico a critério estético. Tendo descoberto que tal autor era doido, chamaram a sua obra má; quando a única afirmação científica que poderiam fazer é que esse autor era doido, e mais nada (...) A ignorância e incompetência dos nossos críticos, a incultura e estupidez do nosso público, a indisciplina mental e o charlatanismo científico dos nossos pretensos homens de ciência – neste meio caiu Orfeu." (Inéditos de Fernando Pessoa).
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"(O doido que viaja para a intuição do universo)" (Inéditos de Fernando Pessoa)
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"Os doidos é que têm o cérebro lúcido; confuso e louco é o cérebro dos que não são doidos.
"O mistério do universo, a complexidade da vida, o futuro de cada um, tudo isto são problemas que encarados lucidamente devem fazer endoidecer. É encarando-os confusamente que se consegue ficar são de espírito.
"Cada pedra do chão é um mistério que o mistério do nosso corpo, misteriosamente andando, faz o mistério de tocar. Ver isto nitidamente é um sintoma de loucura...
"A mania das perseguições? Pois não é a luta universal um facto? Pois não somos todos, consciente - ou inconscientemente - inimigos uns dos outros? A mania das perseguições é uma justa compreensão da inimizade natural de tudo quanto não é eu.
"A exaltação pura? A intuição insandecida do mistério da vida subindo ao cérebro em revoadas de inconsciente exultação alegre.
"A megalomania? O senso da divina grandeza de nós, por sermos, só por sermos.
"A melancolia? A incompreendente sensação do horror e do mistério do mundo e da vida.
"Todas as formas de loucura são formas de lúcida visão. São os sãos de espírito que são os cegos ou os confusos de alma.
"Endoidecer é caminhar para o mistério, avistá-lo de longe.
"Endoidecer é começar a viver.
"A quem pertence a intuição da vida - do mistério? Aos homens de génio. E o que são eles? Homens a caminho da loucura, doidos incompletos." (Inéditos de Fernando Pessoa)

***

Sinto vontade de ser provocador e falar dos maus tratos feitos por todos os cristãos ao bom nome de Jesus da Galileia, a começar pela "má fama" que criaram tanto a sua mãe como a seu pai. E não me venham com pretextos de alegorias e dogmas ou o raio que os parta, porque isso foi escrito e repetido pelo menos um milhão vezes. Em nome de uma coisa que chamam de cristianismo, espécie de neologismo criado há 2000 anos atrás sem que, seguramente, Jesus tivesse alguma coisa a ver com isso.
Para começo de conversa, diria que Jesus nunca afirmou a ninguém que era filho de Deus. Quem poderia testemunhar isso seriam aqueles que o conheceram, que o acompanharam e que certamente se sentiram impressionados com as suas palavras, os seus ensinamentos e a sua coragem, tanto em relação aos chefes judaicos como no que tocava ao ocupante romano, que ele não reconhecia. Repetidas vezes os Evangelhos evocam a sua liberdade de palavra e de acção. Mas que tipo de acção? Aquela que foi descrita nos "Manuscritos do Mar Morto" e na qual toda a gente teima em não acreditar? Hoje nada se pode saber sobre a sua verdadeira história. Segundo também está dito várias vezes é que "ele falava com autoridade". Mas que tipo de autoridade? Repetindo aquilo que citei sobre os escritos de Fernando Pessoa, perguntarei, como ele: "A quem pertence a intuição da vida - do mistério? Aos homens de génio. E quem são eles? (...) Doidos incompletos." Portanto, fica-nos aqui, para já, uma séria dúvida: a autoridade das palavras de Jesus eram emanação da sua "loucura" ou da sua superioridade cultural em relação àqueles que o ouviam? É difícil responder a esta pergunta. A duvidosa ressurreição de Jesus, na qual os chamados apóstolos e primeiros cristãos acreditaram, é que desencadeou a crença de que tinham convivido com um profeta (aquilo que no período da sua vida pensaram que ele era) para acreditarem que tinham estado na presença de alguém que era "mais do que um profeta".
Temos que ter em conta que os primeiros Evangelhos foram anunciados oralmente, e - como diz o ditado popular -, quem escreve um conto acrescenta-lhe um ponto. Sabe-se que só mais de meio século após a morte de Jesus é que começaram a ser escritos. Mas, segundo a abalizada opinião do jesuíta Joseph Moingt, reputado teólogo católico, a verdade dos Evangelhos, dos Actos dos Apóstolos, das cartas de Paulo e de Pedro (que duvido muito que soubesse sequer escrever), constituem pouco mais do que "uma das fontes mais seguras para conhecer o judaísmo vivido entre o Antigo e o Novo Testamento", num período que se estende, grosso modo, de – 200 aos 100/150 da nossa era.
Como já foi dito por alguém, no ocidente todos nós "somos filhos da Bíblia". Lida e relida séculos a fio, é a obra mais traduzida em todo o mundo. Contam-se, presentemente, mais de duas mil e cem traduções integrais ou parciais. Tem dividido e separado muita gente, mas constitui a nossa herança, ou, melhor dito, a nossa dupla herança, judaica e cristã, pois divide-se em dois Testamentos. O primeiro contém a revelação de Deus feita aos hebreus, antepassados dos judeus, quase mil e quinhentos anos antes do nascimento de Jesus, bem como o desenrolar desta revelação no decurso da história do povo judeu ao longo de um milhar de anos, até cerca do ano 200 da nossa era. No segundo, encontramos as narrativas da vida, da morte e da ressurreição de Jesus, de acordo com o sentido que lhe deram os primeiros cristãos mais aqueles que ao longo dos séculos lhe foram introduzindo. Hoje, os rastos paralelos dos herdeiros desses primeiros cristãos são divergentes. Uns, dizendo-se de acordo com valores a pouco e pouco tornados universais, de liberdade, igualdade, tolerância, espírito crítico, solidariedade, etc. (mas, cadê eles?), e outros mostrando-nos o lado sombrio de um passado feito de violência e sangue, de guerras e rivalidades sem fim, marcado pela intolerância e pelo desejo e as tentativas de uns eliminarem os outros.
Seja como for, e quer queiramos quer não, este Deus inventado pelos hebreus é um Deus indissociável da história do Ocidente, das suas vitórias e das suas catástrofes, bem como da génese do mundo moderno... ainda que com os discípulos de Maomé de todas as tendências "à perna".

***
É voz comum dizer-se, apesar dos milhares de livros de sua autoria que se vendem em cada edição, que não de gosta de José Saramago como romancista. Até eu digo o mesmo, mas justificando a minha opinião: é porque a sua escrita (embora perfeita) é maçadora, de emoção quase velada ou nenhuma e os seus romances de fabulação insistentemente frustrante. Por isso me habituei a procurar ler os seus livros mais como ensaios romanceados (permita-se-me a heresia) do que como romances.
No entanto, para que justamente se avalie a superior qualidade da sua escrita (e até do seu fino humor), recomendo que leiam a suposta "Carta aberta ao Exmo. Sr. José Maria Eça de Queiroz por causa dos suaves milagres", publicada no JL de 21 de Junho - 4 de Julho de 2006.

***

Várias vezes tenho lido referências ao livro de Pedro Rosa Mendes, Baía dos Tigres, apelidando-o de romance. O que se me afigura um tremendo disparate e me obriga a confessar não ser capaz de jurar que o seja. É evidente que é deselegante um "oficial do mesmo ofício" fazer publicamente qualquer tipo de comentário desagradável sobre o que podemos chamar de um confrade (palavra feia, esta). Mas a verdade é que eu li o referido livro logo que foi editado e, digo-o com absoluta sinceridade, nunca me passou pela cabeça, durante a leitura, que estava a ler o que viriam a chamar de romance.
Não irei insultar a perspicácia ou a capacidade de julgamento crítico de ninguém, expondo razões para justificar a minha razão. Mas como não sou devoto admirador de nenhum escritor português vivo (que me perdoe o José Saramago), não me sinto obrigado a "engolir" uma enormíssima e por vezes mal enjambrada reportagem (com algum trechos onde se pretendeu imitar a escrita do Mia Couto) como romance, que Baía dos Tigres, na minha pouco modesta opinião, não é nem de perto nem de longe.
Que perdoe este meu destempero o esforçado jornalista que é Pedro Rosa Mendes (pessoa delicada e extremamente correcta), mas ou neste país cada leitor ou escrevinhador de jornal ou revista é um capacitado mas ignorado crítico literário, ou sou eu uma besta incapaz de distinguir a diferença que existe entre a leitura da Bíblia e de O Amante de Lady Chaterlly.

***
No semanal e oco suplemento do Correio da Manhã encabeçado pelo título "Vidas"(cuja qualidade evito designar), Zita Seabra, em jeito de crónica diz-nos que o Papa Bento XVI foi a Espanha. Eu poderia simplesmente comentar que também eu de bom gosto iria (porque amo a Espanha), e aqui terminaria o meu comentário sobre a pouca relevância que tem para mim tal assunto. Mas Zita Seabra alarga a sua já velha notícia com comentários vários sobre o comportamento de Zapatero, chegando ao ponto de nos informar que ele nem sequer tinha ido assistir à missa em Valência. Por acaso eu também não fui, e com a prestativa Zita Seabra provavelmente deve ter-se passado o mesmo. Mas nada disto teria importância se a nóvel cronista não tivesse terminado a sua crónica com o mal construido, dramático e pseudo-filosófico augúrio: "Os governos, os políticos passam, caem, são efémeros, os calendários políticos são velozes e as eleições são de quatro em quatro anos." Apenas lhe faltou acrescentar: Viva o Papa!... e o PP! – o que, nos tempos que correm, não lhe ficaria mal.
Se tivesse podido ler este nebuloso pedaço de prosa, onde desde já se salienta a "profundidade do que diz e escreve" Joseph Ratzinger, o nosso inolvidável Fernando Pessa diria. "E esta, ein!" E por certo não deixaria de concordar que são velozes os calendários políticos, mas muito mais velozes ainda os percursos de vida de algumas pessoas, através do conhecido fenómeno social a que alguém chamou de "a ascensão da insignificância".

***
Perante o que neste momento se está a passar no Líbano, qualquer cidadão consciente é levado à reflexão sobre a sociedade e a política contemporâneas e a pensar em Olivier Morel e nos seus livros "A Crise das Sociedades Ocidentais", "A Cultura numa Sociedade Democrática" ou "A Democracia como Processo e como Regime". E tem, forçosamente, que concluir pelo falhanço das suas teorias, porque, se em Portugal, por exemplo, seria possível uma sociedade democrática através da cultura, como regime será sempre uma treta... exactamente por falta de cultura. E, neste impasse, por desgraça fica-nos apenas a crise das sociedades ocidentais. Mas, ainda assim, como simples referência teórica, porque nos remete para causas sociais e históricas onde nos deparamos com a incoerência, a cegueira, a incapacidade das camadas dominantes ocidentais e dos seus agentes políticos.
Em relação às sociedades ocidentais em geral, haveria muitos factores a considerar e a exigir uma análise para a qual, nesta simples nota, não invocarei nem um pequeno argumento, ainda que em alguns aspectos o pudesse fazer.
Mas o que quero confessar é que da minha antiga simpatia por Israel não resta neste momento, perante o que se passa no Líbano, nem um resquício de sentimento de solidariedade face ao persistente radicalismo da sua posição política. Pelo contrário, o que sinto é ódio pelos seus dirigentes, que nem o seu próprio povo poupam com a sua intransigência.

***

Um belo trecho, do melhor de José Saramago:
"Até à meia-noite em ponto do último dia do ano ainda houve gente que aceitou morrer no mais fiel acatamento às regras, quer as que se reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as que se atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa revestir-se quando chega o momento fatal. Um caso sobre todos os outros interessante, obviamente por se tratar de quem se tratava, foi o da idosíssima e veneranda raínha-mãe. Às vinte e três horas e cinquenta e nove minutos daquele dia trinta e um de dezembro ninguém seria tão ingénuo que apostasse um pau de fósforo queimado pela vida da real senhora. Perdida qualquer esperança, rendidos os médicos à implacável evidência, a família real, hierarquicamente disposta ao redor do leito, esperava com resignação o derradeiro suspiro da matriarca, talvez umas palavrinhas, uma última sentença edificante com vista à formação moral dos amados príncipes seus netos, talvez uma bela e arredondada frase dirigida à sempre ingrata retentiva dos súbditos vindouros. E depois, como se o tempo tivesse parado, não aconteceu nada. A raínha-mãe não melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe porque estranho capricho, continuava a segurar." In "As Intermitências da Morte"

segunda-feira, julho 03, 2006

Que Venham os Francius!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

É LINDO O MEU MENINO!!

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terça-feira, dezembro 20, 2005

GUILHERME!




Your Birthdate: December 5



You have many talents, and you are great at sharing those talents with others.

Most people would be jealous of your clever intellect, but you're just too likeable to elicit jealousy.

Progressive and original, you're usually thinking up cutting edge ideas.

Quick witted and fast thinking, you have difficulty finding new challenges.



Your strength: Your superhuman brainpower



Your weakness: Your susceptibility to boredom



Your power color: Tangerine



Your power symbol: Ace



Your power month: May

sexta-feira, abril 29, 2005








Your Birthdate: March 30

Your birthday on the 30th day of the month shows individual self-expression is necessary for your happiness.

You tend to have a good way of expressing yourself with words, certainly in a manner that is clear and understandable.

You have a good chance of success in fields requiring skill with words.



You can be very dramatic in your presentation and you may be a good actor or a natural mimic.

You have a vivid imagination that can assist you in becoming a good writer or story-teller.

Strong in your opinions, you always tend to think you are on the right side of an issue.



There may be a tendency to scatter your energies and have a lot of loose ends in your work.

You may have significant artistic talent and be very creative.


JOHANNA'S


P.S.->Só não falam do mau feitío!








Your Birthdate: May 6

A birthday on the 6th of the month adds a tone of responsibility, helpfulness, and understanding to your natural inclinations.

Those born on the sixth are more apt to be open and honest with everyone, and more caring about family and friends, too.

This is a number associated with responsibility and caring - this birthday lends a degree of concern for others.


SO PARA LEMBRAR COM ANTECEDENCIA...

ASSIM PODEM COMPRAR-ME UM PRENDA ;)

terça-feira, abril 19, 2005

Qual deve ser o proximo lider do CDS/PP?

PROCURA-SE LIDER PARA ESTE PARTIDO!
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PRETENDE-SE CANDIDATO COM:

- PRESTIGIO POLITICO
- CAPAZ DE LEVAR O PARTIDO NOVAMENTE AO GOVERNO.

(CANDIDATURAS)
1.

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(Já está no governo e sempre recuperavam a foto eheh ;) )

domingo, abril 17, 2005

Sporting!

No final do jogo de quinta feira os adeptos do Newcastle deviam estar a pensar:
"Porque é que eu não sou do Chelsea?"

segunda-feira, março 07, 2005

Aviso Importante

Se alguém receber por engano um retrato do Professor Freitas do Amaral, a culpa é dos CTT.

Será que vai cumprir a promessa?

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NOTÍCIA IMPORTANTE DA CAMPANHA ELEITORAL!

José Sócrates
VAI CRIAR O
CARTÃO ÚNICO

O PS de José Sócrates vai criar um
Cartão Único Nacional
para todos os portugueses!!

Você que tem inúmeros documentos e tem que decorar números como BI, NIF, Beneficiário da Caixa, Cartão de Eleitor, código do Cartão Multibanco, etc., vai ficar feliz com o lançamento do Cartão Único

CU
Guarde bem o nome!
Vai mudar a sua vida!

Este cartão vai acabar com a burocracia de uma vez por todas,
dando a cada português um
CARTÃO ÚNICO (CU).
Veja como o CU passará a ser importante na sua vida.

Inicialmente, irá usar o CU apenas para as necessidades básicas mas, com o tempo, poderá vir a usufruir das variadas facilidades que o CU lhe proporcionará.

Ao requerer um empréstimo, por exemplo,
é só dar o CU ao gerente do banco
que, através de uma simples consulta à Central Nacional do CU,
disponibilizará um montante compatível
com o seu CU.
Numa compra, é só dizer ao empregado:
- “Meta-me no CU, por favor”.
As suas compras ficarão pagas!
Tudo será debitado no seu CU.
E mais, ao praticar um calote,
deixará de ter não o nome sujo na praça. Passará a ter, sim, o CU sujo.

Imagine a cena:
O gerente do banco explicando:
"O senhor(a) desculpe-me, mas não podemos aprovar o crédito pretendido, porque o seu CU está sujo“.

O seu CU servirá também como identificador numa operação da policia, por exemplo: quando for mandado parar e em vez de procurar uma quantidade de documentos, basta mostrar o CU.

Além disso, o seu CU servirá também a causa da segurança. Um bandido saberá que poderá ser facilmente reconhecido pelo CU, o qual será inutilizado por um período previsto na lei. Isso intimidará o larápio. Afinal quem tem CU, tem medo.

Também, numa rusga da polícia,
poderá ficar prevenido,
esperando com o CU na mão.

Chegou o momento de perguntar:
"Será que estou preparado para usar o CU?“
Se acha que sim, comece a falar do CU a toda a gente. No início vai achar estranho tanta gente a pedir-lhe o CU, mas não tenha medo...segundo José Sócrates vai acabar por gostar de usar o CU diariamente.

CU
Guarde bem este nome!
Vai mudar a sua vida!

Pérolas Jornalísticas!

Jornalista da RTP:
"É trágico! Está a arder uma vasta área de pinhal de eucaliptos!"

Jornalista da TVI:
“As chamas estavam a arder!"

Rodapé do telejornal da SIC:
“O assassino matou 30 mortos”

Jornalista da TVI:
“Foi assassinado mas não se sabe se está morto.”

Jornalista da TVI:
“Estão zero graus negativos.”

Comentário de uma jornalista sobre o caso Aquaparque:
“Os aquaparques têm feito, durante este ano, muitas vítimas,
que o digam os dois mortos registados este mês... “

Rádio Voz de Arganil:
“Quatro hectares de trigo queimados. Em princípio trata-se de um incêndio...”

Relato de futebol:
“Chega agora a informação...
O jogador que há pouco saiu lesionado sofreu uma fractura craniana no joelho.”

Jornal TVI, Manuela Moura Guedes:
“Um morreu e o outro está morto.”

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Abram o dicionário e façam Update

Santanice (de Portug. Santana) - Acto ou acção de alguém que acaba sempre por prejudicar outro alguém e ser também ele prejudicado com esse acto ou acção, sem ter consciência disso. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência absoluta dos consequências dessa acção - "fez-lhe uma santanice"; " acabou por se santanizar"; "se disse isso vai ser santanizado" - estupidez, parvoíce, inexperiência, irresponsabilidade de grande dimensão, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder para o fazer."

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Vai uma bebidita?

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Finalmente

Saíram!
E em boa hora o fizeram porque tinhamos aqui uma reportagem pronta e agora já a podemos mostrar.....

ANO NOVO CHINES!

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Sob o SIGNO DA ROSA

SMIRNOFF

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"IN VINO VERITA"

sábado, fevereiro 19, 2005

Chegou a hora!

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CHEGOU A HORA DE PENSAR!
HÁ QUE REFLECTIR!!!
[1][2][3][4][5]

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

ELES vs ELAS

MANEIRAS DE DESENCORAJAR OS HOMENS


ELE: Posso pagar-lhe uma bebida ?
ELA: A bem dizer, prefiro que me dê o dinheiro.

ELE: Eu sou fotógrafo. Tenho andado à procura de um rosto como o seu.
ELA: Eu faço cirurgia plástica. Tenho andado à procura de um rosto como o seu.

ELE: Viva. Não nos encontrámos já uma ou duas vezes ?
ELA: Só pode ter sido uma. Eu nunca cometo o mesmo erro duas vezes.

ELE: Onde é que foi buscar tanta beleza ?
ELA: Devem-me ter dado a sua parte.

ELE: Quer sair comigo no próximo sábado ?
ELA: Lamento. Vou estar com dores de cabeça.

ELE: Essa carinha deve dar a volta a muitas cabeças.
ELA: E essa deve dar a volta a muitos estômagos.

ELE: Vá, não seja tímida. Peça-me para dar uma volta.
ELA: Está bem: vá dar uma volta.

ELE: Acho que eu a podia fazer muito feliz.
ELA: Como ? Vai-se embora ?

ELE: Que me diria se eu lhe pedisse para casar comigo ?
ELA: Nada. Não consigo falar e rir ao mesmo tempo.

ELE: Pode dar-me o seu nome ?
ELA: Porquê ? Não lhe deram já um ?

ELE: Vamos ao cinema ?
ELA: Eu já vi esse filme.

ELE: Por onde tem andado, que só agora a conheci ?
ELA: A esconder-me de si.

ELE: Não nos encontrámos já num lugar qualquer ?
ELA: Já. É por isso que nunca mais lá fui.

ELE: Esse lugar está vago ?
ELA: Está. E se você se sentar, este também.

ELE: Então, que é que faz na vida ?
ELA: Sou um despersonificador fêmea.

ELE: Olá miúda, qual é o teu signo/sinal ?
ELA: Proibido entrar.

ELE: O seu corpo é como um templo.
ELA: Lamento, hoje não há missa.

ELE: Se eu pudesse vê-la nua, morria de felicidade.
ELA: Se eu o visse nu, morria de riso.


ESTA É PARA MULHERES QUE ESTEJAM A
PRECISAR DE SE RIR
(e para homens que tenham sentido de humor).

Receita de Peru

Peru de Natal com Whisky

- Uma Receita para o Natal (mas pode-se comer em qualquer altura do ano)



PERU COM WHISKY

Ingredientes:

1 Garrafa de Whisky (BALLANTINE'S, ou equivalente) - 7,5 dl
1 peru de aproximadamente 5 kg
sal a gosto
pimenta a gosto
350 ml de azeite
500 gr de bacon em fatias

Modo de preparar:

Envolver o peru no bacon e temperá-lo com sal e pimenta
Massaja-lo com azeite
Pré aquecer o forno durante aproximadamente 10 minutos

Servir-se de uma dose bem aviada de whisky enquanto espera

Colocar o peru numa assadeira

Sirva-se de mais umas doses de whisky

Axustar o terbostato na marca 3 e, debois de uns 20 binutos mudar para
assassinar, digo assar a ave

Derrubar uma dose de uichhhhquey (pela goela abaixo, é claro)

Debois de beia hora, avrir a berda da borta e gontrolar a assadura do pato

Begar a garrava de vuissssc e emborcar outra dose

Depois de beia hora, cambalear até o vorno, abrir porra da borta e
enfiá-la no peru, digo virar a ave ao gondrário

Queimar a mão ao vechar a porra do vorno e dizer um balavrão do caraio...
Tentar zentar na gadeira,

Servir-se de uoooootra dose boua de uisssgue

Cozer (?), gosturar (?), gozinhar (?), sei lá, fodazze, dando fazz, o beru

Deixar o filho da buta no vorno por umas 4 horas.

Tentar retirar a berda do beru

Mandar mais umas doses de vvuiiiisscc para dentro (da goela, claro)

Dendar dovamente dirar o sacana do beru do vorno, porque na primeira
dendadiva dãããoooo deeeeuuuu.

Pegar o beru que gaiu, e enxugar o fillo da buta com o bano de lavar u
jão e gologa-lo numa pandeja ou em qualquer outra borra, bois avinal, você
nem gosssssssssssta muito dezza bosta.

E bronto, já dddá!!!!....

ATENÇÃO: Avisam-se os mais susceptiveis de que esta receita poderá dar uma
certa ressaca, ... mas isso é só no dia seguinte!

NOTA: também pode ser com Vodka, Tequilla, Mescal, etc.

Porquê a multa???

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Resposta nos comentários!

Estudo cientifico

O café excessivamente quente, em copo plástico, reduz em

dois terços a potência sexual !!!

"Primeiro queima os dedos ...

... depois a língua..."

GPS POLITICO


A VERDADE NUA E CRUA...
Um homem caminha pela rua de uma pequena povoação,
quando de repente dá-se conta que por cima dele
está a flutuar um balão aerostático.

Desse mesmo balão está pendurado um cesto, e nesse
cesto está um senhor, que lhe acena desesperado.
Curioso, aproxima-se o mais que pode, e tenta
escutar com atenção.

Por fim, o piloto do balão, logra que o aparelho desça
o mais possível e grita do alto:
-Desculpe, poderia ajudar-me? Prometi a um amigo um
encontro ás 2 datarde, mas já são quase 3,e não sei
onde estou!

O transeunte com muita cortesia, responde:
-Claro que posso ajudá-lo! O senhor encontra-se num
balão de ar quente,flutuando a uns 15 mts de altura
desta rua, e está a 40°de latitude norte, e a 58°
de longitude Oeste.

O aeronauta escuta com atenção, e pergunta-lhe com um
sorriso maroto:
-O amigo é do PS?
-Sim senhor, para servi-lo, mas como adivinhou?
-Porque tudo o que me disse é tecnicamente correcto,
mas essa informação, não me serve de nada, porque
continuo perdido!

O homem do PS continua calado, e por fim, pergunta
ao aéreo:
-O senhor não será do PSD?
-Sim, sou social democrata, mas como soube?

-Ah, bastante fácil; Ora veja, o senhor não sabe onde
está, nem para onde vai. Fez uma promessa a um amigo
e não faz ideia como a vai cumprir, e espera que outro
lhe resolva o problema. Está exactamente tão perdido como
antes de me perguntar. Mas agora, por algum estranho
motivo, resulta que a culpa é minha...

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